DADOS · Junho de 2026
A Zona Franca aprova bilhões e fatura de lado
A Suframa aprovou R$ 1,17 bilhão em novos projetos em março, mas o faturamento do polo industrial ficou parado em R$ 37 bilhões no bimestre.
O anúncio e o caixa
A Zona Franca de Manaus é o regime de incentivos fiscais que, desde os anos 1960, atrai indústrias para a capital amazonense em troca de impostos reduzidos, e é a Suframa que aprova quem entra. Em 30 de março de 2026, o Conselho de Administração do órgão aprovou R$ 1,17 bilhão em 83 novos projetos para o Polo Industrial da cidade. Pela conta do próprio governo, esses projetos podem render cerca de 2.880 empregos diretos nos próximos anos e um faturamento estimado em R$ 7,29 bilhões. Dos 83, trinta e oito são empresas novas, que entram com R$ 726,5 milhões e 1.931 vagas previstas, enquanto os outros quarenta e cinco ampliam fábricas já instaladas, somando R$ 449,5 milhões e 949 postos. A reunião foi presidida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o ministério encarregado de conduzir a transição da Reforma Tributária.
No mesmo período, porém, o dinheiro que de fato entrou mal se mexeu. O faturamento real do polo somou R$ 37,04 bilhões no primeiro bimestre de 2026, contra R$ 37,37 bilhões um ano antes, ou US$ 6,73 bilhões em moeda americana, o que, descontada a inflação, significa até um leve recuo.
O anúncio veio alto, e a receita seguiu quieta.
Promessa não vira folha de pagamento
Investimento e faturamento são duas palavras que o noticiário costuma juntar, embora vivam em tempos diferentes. Investimento aprovado é a promessa de uma fábrica que talvez se instale daqui a alguns anos, se tudo der certo. Faturamento é o dinheiro que entra agora, mês a mês, e que paga salário e movimenta o comércio da cidade. É mais ou menos a diferença entre o que cai na conta no fim do mês e a promoção que prometeram para daqui a um ano. O bilhão aprovado pela Suframa ainda não virou faturamento, e os empregos projetados para o futuro não cobrem a folha do mês que vem, porque o salário de hoje sai do que se fatura hoje, e a fábrica prometida só entra na conta quando deixar de ser promessa.
Daí a pergunta que a Zona Franca terá de responder antes que a régua fiscal mude. O que segura os cerca de 129 mil empregos diretos no dia em que o incentivo que sustenta o modelo virar outra coisa?
Ponto de vista.
Aqui entra a minha leitura. O economista Celso Furtado passou a obra inteira separando duas ideias que o noticiário insiste em embaralhar, crescer e desenvolver. Crescer é faturar mais com a mesma estrutura de sempre. Desenvolver é mudar essa estrutura, de modo que a renda fique na região e se espalhe entre as pessoas, em vez de apenas passar por elas a caminho de outro lugar. Sob essa régua, o anúncio da Suframa soa como promessa de crescimento que ainda não provou ser desenvolvimento, porque um investimento aprovado só vira fábrica e emprego se a regra fiscal e a cadeia local segurarem aquilo que foi prometido. Não por acaso, uma crítica antiga ao polo é que ele monta, em Manaus, peças vindas de fora para vender ao resto do país, de modo que a renda passa mais do que fica.
A Zona Franca nasceu em 1967 como aposta de ocupar a Amazônia pela indústria, e quase sessenta anos depois ainda se apoia no mesmo andaime fiscal que a ergueu. Samuel Benchimol, que a estudou de dentro, deu a um de seus livros o título Zênite Ecológico e Nadir Econômico-Social, imagem de um Amazonas abundante em floresta e frágil em estrutura própria.
Por isso os R$ 37 bilhões parados ao lado do anúncio de R$ 1,17 bilhão me parecem a fotografia do problema, um modelo que cresce no papel e patina no caixa. O que sobra da economia de Manaus no dia em que aquilo que a sustenta deixar de existir? Enquanto a resposta depender de um incentivo que a própria União já decidiu redesenhar, a cidade segue erguendo a casa sobre um andaime que avisaram que vão tirar.
gov.br / Suframa, aprovação dos R$ 1,17 bilhão pelo Conselho de Administração (CAS 322) e faturamento do PIM no 1º bimestre de 2026; cobertura da Agência Gov. Citações: Celso Furtado (crescimento e desenvolvimento) e Samuel Benchimol (Zênite Ecológico e Nadir Econômico-Social).