DADOS · Junho de 2026

Suicídio indígena: o Amazonas no alto dos números absolutos

Foram 208 suicídios de indígenas no Brasil em 2024, e o Amazonas concentra o maior número absoluto, com 75 casos.

A geografia da conta

O Brasil registrou 208 suicídios de indígenas em 2024, segundo o relatório anual do Cimi, o Conselho Indigenista Missionário, entidade ligada à Igreja Católica que há décadas acompanha a vida dos povos originários. Para chegar a esse total, o Cimi cruza os dados de mortalidade do Ministério da Saúde com os registros das secretarias estaduais e da Sesai, a secretaria federal de saúde indígena. Foram 28 mortes a mais do que em 2023, quando o levantamento havia contado 180 casos, um aumento de 15,5% em um único ano. No topo da lista absoluta aparece o Amazonas, com 75 casos, à frente de Mato Grosso do Sul, com 42, e de Roraima, com 26, três estados que sozinhos respondem por boa parte do total e ajudam a explicar por que o assunto costuma ser tratado como questão amazônica antes de nacional.

A idade das vítimas adensa o quadro. Entre os mortos, 32% ainda não tinham completado vinte anos e outros 37% estavam na casa dos vinte, de modo que mais de dois terços partiram antes dos trinta.

O que está por trás dos números

Quem acompanha o tema há mais tempo olha para além de um único ano. Uma pesquisa da Fiocruz, a fundação de pesquisa do Ministério da Saúde, contou 1.030 suicídios de indígenas entre 2015 e 2022, com 55% deles entre jovens de 15 a 24 anos, e só no distrito sanitário do Alto Rio Negro, no noroeste do Amazonas, foram 91 casos entre 2018 e 2022, a maioria de rapazes. Os pesquisadores apontam fatores que costumam aparecer juntos. O garimpo suja a água dos rios e desorganiza a rotina das aldeias. O território encolhe sob o avanço de fazendas e cidades no entorno. E o atendimento de saúde costuma ficar a um dia inteiro de viagem de barco, nem sempre em uma língua que a aldeia entenda. Diante desse acúmulo, especialistas falam em um sofrimento que se arrasta por gerações e calculam para os povos indígenas uma taxa de suicídio que chega perto do triplo da média nacional.

No mapa, essas mortes não se espalham de forma aleatória pelo país inteiro.

Ponto de vista.

Aqui entra a minha leitura. Quando dois terços das mortes se concentram em jovens de um mesmo grupo, e esse grupo é sempre o mesmo, a saída confortável é tratar cada uma dessas mortes como uma tragédia estritamente íntima, um mistério que pertenceria apenas a quem partiu. Foi contra essa saída que Émile Durkheim escreveu, em 1897, o estudo O Suicídio, que ajudou a fundar a sociologia, ao mostrar que a morte voluntária se distribui conforme o grau de integração e de amparo que cada sociedade oferece aos seus. Lida com essa lente, a estatística indígena muda de figura, porque o que varia de um território para outro é a pressão sobre cada lugar, do garimpo na água à terra que vai encolhendo, muito mais do que qualquer diferença de têmpera entre as pessoas.

Há um modo indígena de dizer a mesma coisa, e ele nomeia por dentro o que a sociologia descreve por fora. Ailton Krenak, em Ideias para Adiar o Fim do Mundo, sustenta que arrancar um povo do seu chão e das suas referências é uma forma de empurrá-lo para fora da própria vida, porque tirar a terra é tirar o enredo que dá sentido a levantar de manhã. Esse argumento ganha rosto em casos concretos, como o dos Mura de Autazes, no Amazonas, ameaçados por um projeto de mineração de potássio, e, ao estudar esse conflito, o pesquisador Renildo Viana Azevedo registra que manter o território é, para eles, condição “fundamental para o seu modo de vida e sua sobrevivência”. São pessoas cujas casas flutuantes sobem e descem com a cheia e a seca do rio, de modo que interferir na terra é interferir na própria vida, e o que parecia escolha de cada um reaparece como efeito de uma pressão coletiva sobre o lugar.

Do lado yanomami, há um testemunho que vai na mesma direção. Davi Kopenawa, em A Queda do Céu, escrito com o antropólogo Bruce Albert, descreve o adoecimento que toma conta dos Yanomami quando o garimpeiro desarruma o mundo que os sustentava.

O território adoece junto com quem o habita.

Por isso a conta de 2024 me parece menos um inventário de fraquezas individuais e mais um boletim sobre o que foi feito com esses lugares. O suicídio dos jovens é a ponta visível de um luto que o Estado quase nunca ajudou a elaborar, e aparece primeiro entre os que ainda nem tiveram tempo de herdar a língua inteira. Enquanto a resposta pública continuar lendo o problema apenas como estatística de saúde, sem encará-lo também como pergunta sobre território, a curva deve seguir subindo onde a floresta recua.

Cimi, Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil (dados de 2024); faixa etária e série histórica em estudos da Fiocruz e em reportagem da InfoAmazonia. Citações: Émile Durkheim (O Suicídio, 1897); Ailton Krenak (Ideias para Adiar o Fim do Mundo); Davi Kopenawa e Bruce Albert (A Queda do Céu); e Renildo Viana Azevedo, Território dos ‘Flutuantes’ (dissertação, PPGSCA/UFAM, 2019).