ESTUDO · Junho de 2026

Derrubar a floresta seca a floresta

Um estudo da USP na revista Nature Communications atribui à perda de floresta cerca de 74% da chuva que a Amazônia deixou de receber na estação seca.

A floresta fabrica a própria chuva

Comece por uma ideia que soa poética e é apenas física. A floresta amazônica fabrica boa parte da chuva que ela mesma recebe, porque cada árvore puxa água do solo pelas raízes e a devolve ao ar como vapor, pelas folhas, no processo que os cientistas chamam de evapotranspiração. Multiplicado por bilhões de árvores, esse vapor sobe, forma nuvens e volta a cair como chuva sobre a própria mata e sobre as lavouras do Centro-Sul do país. É um sistema que rega a si mesmo, e que segue funcionando enquanto houver árvore em quantidade suficiente para mantê-lo girando.

Um grupo de pesquisadores da USP decidiu medir quanto desse sistema já se perdeu. O trabalho saiu na revista científica Nature Communications em setembro de 2025 e cruzou 35 anos de dados de satélite e de atmosfera, de 1985 a 2020.

Para separar o que é efeito do desmatamento do que é efeito do clima do planeta, a equipe dividiu a Amazônia Legal em 29 grandes blocos, somando cerca de 2,6 milhões de quilômetros quadrados, e comparou as áreas que perderam floresta com as que se mantiveram de pé. O resultado chama atenção pela proporção. Da chuva que a região deixou de receber na estação seca, cerca de 74% se devem à floresta que foi cortada, e o restante ao aquecimento global. No aumento da temperatura durante a seca a conta se inverte, porque o desmatamento responde por algo perto de 16% e o resto vem da emissão mundial de gases, que esquenta o ar em toda parte. Em números do cotidiano, o bioma passou a receber cerca de 21 milímetros de chuva a menos por estação seca, uma queda de aproximadamente 8% em relação a meados dos anos 1980.

A divisão entre as duas causas desfaz uma confusão comum. Costumamos tratar floresta e clima como assuntos vizinhos, embora sejam o mesmo assunto visto de dois ângulos, porque a mata que some leva junto a chuva que ela bombeava.

Onde fica o ponto sem volta

Há um limite a partir do qual a floresta deixa de conseguir se refazer sozinha. É o chamado ponto de não retorno, o momento em que o estrago passa a se alimentar a si mesmo e a mata, mesmo sem novos cortes, escorrega para virar algo parecido com um cerrado seco. O contorno desse limite ficou mais firme com um estudo coordenado pelo brasileiro Bernardo Flores e publicado na revista Nature em 2024, que desenha uma espécie de margem de segurança para o sistema. Para manter a floresta em pé, seria preciso segurar o aquecimento global perto de 1,5 grau e o desmatamento em torno de 10% da bacia, ao passo que o risco de colapso aparece quando a perda avança para a faixa de 20% a 25% que pesquisas anteriores já vinham apontando.

O problema é que a bacia já perdeu cerca de 17% da cobertura original, de modo que a margem que resta é estreita. Passado o limite, replantar deixa de ser questão de vontade política, porque a floresta responde no seu próprio tempo, bem mais longo que o de qualquer governo.

E a conta não para em Manaus.

A mesma chuva que nasce na evapotranspiração da floresta desce sobre as plantações do Centro-Sul. Quem cultiva soja a dois mil quilômetros de distância depende, muitas vezes sem saber, da água que vem da Amazônia.

Ponto de vista.

Aqui entra a minha leitura. O que mais me impressiona nesses números é que eles confirmam, em milímetros, uma intuição que já vinha sendo dita em palavras. O climatologista Antonio Donato Nobre, no relatório O Futuro Climático da Amazônia, descreveu a floresta como uma bomba d’água movida a luz do sol, capaz de puxar a umidade do oceano para dentro do continente pelos chamados rios voadores, correntes de vapor que correm pelo céu e carregam mais água do que o próprio rio Amazonas. Derrubar a mata, alertava ele, equivale a desligar esse motor. Os pesquisadores da USP deram lastro à imagem, porque mediram com instrumento aquilo que Nobre vinha descrevendo como função.

Há também uma virada de mentalidade embutida nesses resultados, e ela é mais profunda do que parece. Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, no ensaio Há Mundo Por Vir?, lembram que o pensamento moderno se acostumou a imaginar a natureza como um cenário fixo, um pano de fundo diante do qual a história humana acontece sem afetá-lo. O estudo do ponto de não retorno desmancha esse conforto, porque mostra um intervalo de desmatamento e de temperatura dentro do qual ainda se pode escolher, e mostra também que, fora dele, a escolha passa a ser da floresta, que responde secando.

Quando esse cenário começa a se mexer, a conta chega justamente a quem se achava de fora. O físico Fritjof Capra, em A Teia da Vida, resume a lição que a ecologia vem repetindo há décadas, ao escrever que “práticas destrutivas não funcionam a longo prazo” e que, no fim, “os agressores sempre destroem a si mesmos”. É o que parece valer para a floresta, porque cada árvore derrubada no Amazonas corta um fio da rede que liga a copa de uma castanheira à torneira aberta em São Paulo. O agricultor do Sul que torce o nariz para o assunto amazônico talvez esteja, sem perceber, regando a própria lavoura com a chuva que ajuda a fazer desaparecer.

Estudo da USP na revista Nature Communications (setembro de 2025), com dados do Jornal da USP e da Agência FAPESP; ponto de não retorno em Flores et al., revista Nature (2024). Citações: Antonio Donato Nobre (O Futuro Climático da Amazônia); Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski (Há Mundo Por Vir?); e Fritjof Capra (A Teia da Vida).