Dossiê
Belo Monte é o caso brasileiro em que o vocabulário técnico mais agride a realidade. A barragem não secou o Xingu. Secou um trecho específico, o da Volta Grande, e secou um modo de vida. Os Juruna criaram o próprio sistema de monitoramento, o Mati-VGX, em parte porque desconfiaram dos dados oficiais. As medições deles confirmam o que qualquer ribeirinho daquela curva do rio sabe sem precisar de instrumento. O peixe sumiu, o igapó morreu, a navegação perdeu calado. O ponto jurídico que sobrevive é a validade do Hidrograma de Consenso, o documento que define quanta água a Norte Energia precisa devolver ao trecho desviado. Discutir esse hidrograma é discutir, no fundo, quanto custa, em moeda corrente, a vida que dependia daquele rio antes da turbina.